26/01/2004

O sorriso de Fehér

"Olha, o Fehér está a jogar!", disse o Artur quando mudámos de canal para a Sport Tv, para ver os ultimos minutos do jogo. E lá me lembrei eu novamente do João, meu primeiro namorado, que ontem fazia anos. O empate mantinha-se. Dissémos piadas sobre natação com bola, sobre a "a bola não sabe nadar iô!", depois veio o golo "YES!", a reposição de bola, a entrada no período de descontos, a saída da bola pela linha lateral, o Fehér que se aproxima do jogador do Guimarães e lhe atira a bola das mãos, o Olegário de cartão amarelo em punho, que o Fehér, com o sorriso do João, aceita com fair-play, e que depois se vira, se dobra e cai desamparado, o auxílio imediato do Sokota, o choro convulsivo do Tiago, do Miguel e do Anderssen, a equipa médica a fazer massagem cardíaca e eu de olhos no ecrã a não acreditar que aquilo estava a acontecer... Miki Fehér sai de campo de ambulância, a Sport Tv vai para publicidade, mudo para a RTP 1 e oiço Domingos Gomes dizer que está optimista em virtude da idade do jogador e das resistências provocadas pela prática do desporto. Ligo o rádio para ir ouvindo testemunhos de gente que dizia muita coisa que não servia para nada. Vou mudando compulsivamente de canal, a tentar ver quem sabe primeiro o que se passa na realidade. É na RTP 1 que primeiro oiço a Cecília Carmo dizer que Fehér morreu. Com 24 anos. De um problema cardíaco em que a reanimação foi tentada sem sucesso. Tinha só 24 anos. Parecia o João, jogava no meu Benfica e morreu, assim, sem mais nem menos, em período de compensação, no berço de Portugal e longe da sua Hungria, com um sorriso à laia de quem se despede num "até já".
And nothing else matters. Um sorriso para ti também, Fehér.